Autismo nas Mulheres: O que a ciência já sabe e o que ainda falta reconhecer
Abril é o Mês da Consciencialização do Autismo — uma oportunidade para amplificar vozes, esclarecer mitos e discutir realidades frequentemente invisíveis. Entre elas, destaca‑se o autismo nas mulheres: um campo ainda marcado pelo subdiagnóstico e por estereótipos ultrapassados.
Durante anos, acreditou‑se que o autismo era mais comum em homens do que em mulheres, estimando‑se um rácio de cerca de 4:1. Hoje, sabemos que essa diferença pode refletir sobretudo viés nos critérios e nos processos de diagnóstico, historicamente desenvolvidos a partir de amostras masculinas. Estudos recentes sugerem rácios mais próximos de 3:1 ou até 2:11,2, sugerindo que o diagnóstico no feminino continua aquém das necessidades reais.
O que dificulta o diagnóstico de PEA nas mulheres?
Embora os critérios da Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) sejam comuns a ambos os sexos, nas mulheres as características tendem a manifestar-se de forma mais subtil3, frequentemente com:
- sintomas internalizados (ansiedade, depressão, exaustão social);
- interesses intensos, mas socialmente aceites;
- menos sinais “típicos” (por exemplo, dificuldades de contacto ocular).
Como muitos instrumentos de avaliação foram desenvolvidos com base em amostras masculinas, refletindo a crença de que o autismo era sobretudo masculino, estas diferenças acabam por não ser reconhecidas, fazendo com que o perfil feminino não encaixe nos “modelos clássicos” de PEA.4
Camuflagem: a razão pela qual tantas mulheres passam despercebidas
Um dos fatores mais discutidos para explicar o viés no diagnóstico é o fenómeno da camuflagem social – um conjunto de estratégias, conscientes ou não, usadas para “imitar" comportamentos considerados neurotípicos5 como:
- copiar ou ensaiar comportamentos sociais,
- suprimir estereotipias ou comportamentos autorreguladores,
- memorizar guiões de conversas para usar em situações sociais.
Nas mulheres, estas estratégias tendem a ser mais frequentes, mais sofisticadas e mais desgastantes do ponto de vista emocional. A motivação para a implementação destas estratégias pode estar ligada ao desejo de pertença, ao medo de rejeição ou a anos de socialização que incentivam comportamentos “adequados” e discretos. ⁶ Isto deve‑se, em parte, às normas sociais: meninas e mulheres são educadas, desde cedo, para serem “adequadas”, empáticas, comunicativas e emocionalmente reguladas, o que as leva a ajustar o comportamento para corresponder às expectativas sociais, mesmo que tal envolva esforço elevado e desconforto.
A camuflagem reduz artificialmente a visibilidade das características da PEA durante a avaliação clínica⁷, especialmente em consultas rápidas ou observações pontuais. Esse esforço constante pode culminar em ansiedade, burnout, exaustão social e crises internas — dificuldades que são frequentemente tratadas como problemas isolados, e não como sinais de um possível neurodesenvolvimento divergente.
Comorbilidades que confundem o diagnóstico
A presença elevada de comorbilidades - sobretudo de saúde mental – torna o diagnóstico da PEA mais complexo. As mulheres com PEA têm maior probabilidade de apresentar ansiedade, depressão, risco de suicídio, perturbações alimentares e perturbações de personalidade9.
Estas condições podem mascarar sinais de PEA ou, pelo contrário, ser interpretadas como explicações alternativas, desviando a atenção clínica para outros diagnósticos, contribuindo para atrasos no reconhecimento da PEA.
O impacto do diagnóstico tardio
Um diagnóstico tardio tem impacto profundo na vida das mulheres com PEA. Décadas de ausência de compreensão sobre a própria identidade aumentam o risco de isolamento e de sofrimento psicológico. Muitas chegam à idade adulta sem compreender as suas dificuldades10, experienciando:
- sentimentos de inadequação,
- desafios nas relações e no trabalho,
- problemas de saúde mental,
- falta de acesso a apoios adequados.
O que precisa mudar?
O autismo nas mulheres não é mais raro — é menos visível. Estereótipos de género, diferenças subtis de apresentação, comorbilidades e estratégias de camuflagem contribuem para que milhares de mulheres permaneçam sem diagnóstico.
A literatura11 recomenda mudanças claras na prática clínica e institucional, incluindo:
- formação especializada para profissionais de saúde, educação e psicologia,
- ampliação dos comportamentos considerados nos critérios clínicos, sem criar critérios diferentes por sexo,
- avaliações mais sensíveis, com recolha detalhada da história de desenvolvimento,
- entrevistas que incluam o relato direto da pessoa,
- avaliação multidisciplinar com múltiplas fontes de informação,
- uso criterioso de instrumentos validados como, por exemplo, a ADOS-2 e ADI-R.
Reconhecer estas especificidades, alargando o “olho clínico”, é essencial para construir uma sociedade que compreenda, apoie e valorize a neurodiversidade — sem filtros e sem máscaras.
Referências
2 The BMJ. (2025).[Artigo em página da BMJ].
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